sábado, 3 de fevereiro de 2018

História do Cinema em Portugal - Leitão de Barros - Esperança e Desilusão do Cinema Português


1. Em 1930 as atenções estavam todas voltadas para Leitão de Barros. Maria do Mar, situando-se logo após um período de decadência da produção nacional, tinha vindo colocar-se dignamente na primeira fila de toda a cinematografia portuguesa e apresentava-se (pelo menos aparentemente) como uma procura de estilo. «Nesse filme ― escreveu Roberto Nobre ― «havia uma inusitada densidade, um poder plástico tendendo mais à sobriedade rude do que ao bonito, uma avaliação do sentido dramático e humano, arrancando às máscaras vigorosas, curtidas pelo sol e pelo sal do mar da Nazaré, um carácter cheio de genuinidade.» 5  Homem de múltiplas facetas, Leitão de Barros dispersa o seu entusiasmo, os seus interesses, as suas capacidades e a sua constante inquietação por diferentes actividades: «Pinta, ensina, pronuncia conferências, escreve crónicas e artigos (dirá Acúrsio Pereira) que têm a marca desse talento singular que lhe atribuiu no berço uma ronda ingénua de fadas protectoras. Comenta com bom humor no artigo de fundo, palpita na reportagem, sorri trocista nas entrelinhas do «éco» jornalístico.» Faz cinema ― com dois ou três momentos fulgurantes ― e organiza históricos com o mesmo jeito com que movimenta centenas de figurantes no écran. 

Talvez esta dispersão, estes vários e desiguais talentos, tenham, afinal, pesado negativamente na sua obra cinematográfica, muito desigual, que transita do realismo poético para o populismo e daí para o «film d’art». Desde A Severa ao estenderete que foi Vendaval Maravilhoso, passando por Ala-Arriba e Camões, a filmografia de Leitão de Barros é um zigue-zague constante, com altos e baixos dentro mesmo de cada obra. Mas, sem Maria do Mar, Nazaré, Lisboa e A Severa, talvez o cinema português não tivesse ganho fôlego para uma nova arrancada. E nessa arrancada Leitão de Barros teve papel relevante. Lança-se nela com a decisão do pioneiro e com o espírito de quem parte para uma maravilhosa aventura. Quando filma Nazaré, quando realiza Maria do Mar, supera com engenho os problemas da falta de meios técnicos. 

Com entusiasmo feito de amor pelo cinema. Com plena consciência de que o cinema, em Portugal, é, nessa altura, uma actividade artesanal no meio de carências de toda a espécie. Ele próprio dirá: «Entre nós ,o cinema quase sempre é para o realizador a arte do equilíbrio sobre renúncias e o autor de cinema, é, apenas, um arrojado equilibrista.» Anima-o, também, uma ingénua fé no futuro da nossa cinematografia: «Acredito num cinema português ― dirá ele numa conferência pronunciada em 1948 ― porque acredito na eternidade deste grupo parecido que somos nós, mandriões pescadores que nos deitamos ao sol da praia na certeza do peixe de amanhã, que somos capazes de muita asneira e de muita coisa bem feita, que somos, enfim, uma raça; isto é, que levamos sobre alguns outros povos esta vantagenzinha apreciável: conhecermo-nos uns aos outros, de gingeira, há oito séculos! E, graças a Deus, damo-nos mal.» Entusiasta pelo cinema, que viu nascer e que o atrai desde os bancos do liceu, Leitão de Barros olha com confiança a consolidação de um cinema nosso com traços próprios e as marcas das nossas lusitanas particularidades (que as teve num cinema de imitação), mas trai as esperanças que alimentou com Maria do Mar, vai perdendo força e espontaneidade, afasta-se do povo e emaranha-se no gosto pelo espectáculo sem realmente acercar-se da Vida ou da Poesia, nem quando trata de Camões, de Bocage ou de Castro Alves. Todos os méritos e defeitos deixou-os logo, vemo-lo hoje melhor do que então, em A Severa, mais um exemplo de cinema voltado para o passado como estava na tradição da nossa cinematografia. 


2. Em 1931, o cinema tornara-se sonoro e falante. A maior parte das vezes falava pelos cotovelos (para dizer muito pouco) e cantava a todo o propósito. Pensou-se, na altura, que o sonoro iria prejudicar a universalidade do espectáculo cinematográfico e favorecer as cinematografias nacionais. Leitão de Barros apercebeu-se logo das potencialidades do cinema sonoro e das grandes possibilidades de êxito que teria o primeiro filme falado e cantado em português. Sem esperar pela criação de um estúdio devidamente equipado, encetou a realização de A Severa, cuja sonorização seria feita em Paris, nos estúdios de Epinay. Júlio Dantas volta, assim, ao cinema português ― e, por via disso, entram no cinema português o fado e os touros, de que dificilmente nos havemos de libertar, mais o marialvismo que lhe está adstrito... A Severa teve um êxito invulgar. O filme ia ao encontro do gosto popular, tinha de tudo: as belas imagens da lezíria, as faustosas festas da aristocracia, os fados, as facetas cómicas do Timpanas (a canção interpretada pelo Silvestre Alegrim fez carreira), os confrontos da marquesa com a fadista, as corridas de toiros, um fandango dançado por Francis, a grotesca paixão do Custódia e a morte da Severa cercada por populares envergando trajes regionais de todas as províncias portuguesas (simbolizando Portugal chorando a morte do Fado). 

A adesão do público ao cinema sonoro e o sucesso de A Severa impulsionaram a criação da Tobis Portuguesa, fundada em Junho de 1932, depois de uma campanha que entusiasmou o pais cinéfilo. Centenas de pessoas, cheias de ilusões e de boa vontade, compraram acções daquela companhia, que viria mais tarde a ser absorvida pela Lisboa-Film. Na já citada Quinta das Conchas foi construído um estúdio moderno, projectado pelo técnico francês A. Richard e pelo arquitecto Cottinelli Telmo. (Manuel de Azevedo, in Perspectiva do Cinema Português). O Estado deu também uma ajuda (Decreto-Lei n.º 22.966 publicado no «Diário do Governo» de 14 de Agosto) isentando, durante cinco anos, a Tobis Portuguesa do pagamento das contribuições predial e industrial bem assim como dos direitos de importação de maquinismos, aparelhos e materiais necessários ao estabelecimento da sua indústria. O artigo 3.º do referido decreto, que obrigava «os importadores de filmes sonoros estrangeiros a adquirir, para exibição em Portugal, filmes sonoros portugueses na metragem que for anualmente fixada pelo Governo, em harmonia com as condições da produção nacional», não teve, porém, a desejada aplicação.  O cinema português preparava-se para percorrer uma nova etapa. Acentue-se que para isso ― sobretudo para a criação de um clima de entusiasmo que levou à construção dos estúdios da Tobis ― muito contribuíram o próprio entusiasmo e a acção de Leitão de Barros.

Informação retirada de Breve História do Cinema Português (1896-1962) de Alves Costa
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