terça-feira, 19 de dezembro de 2017

História do Cinema em Portugal - A Invicta Film (1917-1924) ― O cinema português feito por estrangeiros


Alfredo Nunes de Matos, outro portuense, tinha criado, em 1910, uma firma, ainda modesta, sob a razão social de Nunes de Matos & C.ª (Invicta Film) para se dedicar à produção de «panorâmicas», filmes de reportagem e fitas de propaganda industrial. Para operadores chamou Manuel Cardoso, técnico competente que estivera ligado à extinta Portugália-Film, e o aragonês Thomas Mary Rosell, que, além de operador, era também responsável pelos trabalhos laboratoriais. De 1910 a 1917 foram muitas as dezenas de filmes produzidos por esta sociedade. De muitos se conhecem os títulos, embora quase nada reste desse documentarismo em que a firma de Nunes de Matos se especializara. Com enorme sentido de oportunidade, um desses documentários-reportagem incidiu sobre o naufrágio do «Veronese», que ocorreu frente à Boa Nova (em Leça) na madrugada de 10 de Fevereiro de 1913. O filme tinha uma metragem excepcional para a época (300 metros) e dele foram vendidas para o estrangeiro 108 cópias. De resto, dados os contactos de Nunes de Matos com a «Pathé» e a «Gaumont», muitos filmes da sua produção foram incluidos nos «jornais de actualidades» dessas casas francesas. Deste modo, correram mundo variadas imagens de aspectos e acontecimentos portugueses. Esta firma, que tivera a sua sede no n.º 135 da Rua de Santo Ildefonso, no Porto, instalou-se mais tarde, com um pequeno estúdio e um laboratório, numa dependência do Salão-Jardim Passos Manuel, famosa casa de espectáculos de cinema e music-hall que existiu durante muitos anos no local onde hoje se ergue o Coliseu, a que Alfredo Nunes de Matos estava ligado como orientador e gerente. Entretanto, Nunes de Matos, homem muito activo e empreendedor, ia estudando e amadurecendo um projecto ambicioso: criar no Porto um verdadeiro centro produtor de filmes, com estúdios espaçosos e bem equipados e laboratórios com bom apetrechamento e pessoal técnico devidamente habilitado. Em fins de 1917 decide ir para a frente, encontrando no banqueiro José Augusto Dias o primeiro apoio financeiro. E assim, no dia 22 de Novembro de 1917, constituía-se uma nova sociedade por quotas, com um capital de 150 mil escudos (verba que corresponderia, hoje, a mais de quatro mil contos) que adoptaria a designação de Invicta Film Limitada.  Todos os haveres da primitiva firma Nunes de Matos & C.ª (Invicta Film) constituídos por máquinas de filmar, aparelhagem técnica, material eléctrico, móveis e utensílios, assim como uma razoável quantidade de filmes, são adquiridos pela nova empresa para a qual transitam. Alfredo Nunes de Matos ocupa o cargo de gerente-técnico dentro do Conselho de Administração da Sociedade 2 que, por sua vez, contrata para director artístico da empresa Henrique Alegria, homem já ligado a negócios cinematográficos, pois a ele se devem a construção e exploração do cinema Olímpia, do Porto (que ainda existe, mas que à data da sua inauguração, em 18 de Maio de 1912, ostentava o nome pomposo de Olympia-Kinema-Teatro). Todo o pessoal técnico da antiga firma de Nunes de Matos passa para a nova sociedade que se encontra, assim, apta a funcionar antes mesmo da construção e equipamento dos projectados Estúdios. Em 1918, Alfredo Nunes de Matos e Henrique Alegria partem para Paris com o encargo de adquirirem o melhor material técnico e contratarem pessoal especializado. Entretanto, tornava-se necessário obter um local para a implantação do novo complexo industrial. Depois de várias pesquisas, foi decidido comprar a Quinta da Prelada, sita ao Carvalhido, no Porto, propriedade da Santa Casa da Misericórdia. A transacção foi feita por 27 161$00 (valor da época). Os terrenos tinham uma área de 50 000 metros quadrados. Em tempos recuados a casa e quinta da Prelada pertenceram à família dos Noronhas, tendo sido reformadas, em 1770, pelo arquitecto italiano Nicolau Nazoni. A viagem a França de Nunes de Matos e Henrique Alegria foi coroada do melhor êxito, pois encontram na «Pathé Frères» todo o apoio e colaboração. Dali trazem os planos de construção do futuro estúdio da Invicta Film e um grupo de técnicos experimentados: o operador Albert Durot, o arquitecto-decorador André Lecointre, o chefe de laboratório Georges Coutable, a montadora Valentine Coutable e o realizador George Pallu, que fizera a sua carreira de profissional de cinema no «Film d’Art» e na «Pathé». Mais tarde, os Coutable seriam substituídos por J. Trobat e Mme. Meunier, que, diga-se de passagem, eram técnicos excelentes, e o operador Durot daria o lugar a Maurice Laumann, um «cameraman» muito competente e que ficou no Porto até depois da extinção da Invicta Film. Com tudo pronto para a grande arrancada começa a construção dos Estúdios e Laboratórios da Prelada, cuja conclusão só se verificaria em 1920. Isto não impediu, no entanto, que a Invicta Film iniciasse, de imediato, a produção de filmes de enredo e longa-metragem. Por contrato com a Casa Pathé, esta então famosa produtora francesa obrigava-se a fornecer o filme virgem necessário, tirar cópias, fornecer material e mesmo fazer a montagem dos negativos. Em meados de Maio de 1918, já quase todos os elementos contratados em França se encontravam no Porto. E, no mês seguinte, iniciava-se a filmagem, sob a direcção de Georges Pallu, de Frei Bonifácio, adaptação de um conto ainda inédito de Júlio Dantas. Em 4 de Outubro de 1918, o filme (com duas partes ― 800 metros) faz a sua estreia no cinema Olímpia, de Lisboa. Foi seu protagonista o actor Duarte Silva que, por muito tempo, se conservou ao serviço da Invicta Film. O conto tinha bastante humor; Duarte Silva, que se estreava no cinema, fez um excelente papel; a qualidade técnica da fita era, para a época, muito razoável; tudo isto junto granjeou para este Frei Bonifácio cinematográfico um merecido sucesso. Feito em cinco dias, foi uma espécie de prova de capacidade de todos quantos nele intervieram. Começava a era do «cinema português feito por estrangeiros».  Georges Pallu era um homem inteligente e culto, bacharelado em Direito pela Faculdade de Paris. Atraído pelo cinema, ingressou nos quadros do «Film d’Art» onde ganhou grande experiência. Profissional competente, não era, infelizmente, um inovador. Faltava-lhe a chispazinha de gênio de um Louis Delluc, por exemplo. Em contrapartida era «homem probo, fino de trato, impecável nos seus contactos humanos. A partir do momento em que cruzou o portão da Quinta da Prelada, Pallu logrou conquistar uma situação privilegiada mantendo com tacto, aprumo e compreensão pelo trabalho alheio uma posição de grande dignidade e de profunda simpatia que lhe granjearia, durante todo o período da sua larga presença entre nós, um ambiente de respeito e de completa adesão» 3. 

Demonstrada, com Frei Bonifácio, a capacidade dos técnicos contratados em França, a empresa não espera pela construção dos Estúdios e Laboratórios do Carvalhido para prosseguir com a produção de filmes de enredo. É assim que, em princípios de 1919, entra em rodagem uma fita mais ambiciosa, adaptação de um romance muito popular de Manuel Maria Rodrigues: A Rosa do Adro. Pensa-se, na Invicta, que a produção deve apoiar-se na literatura nacional para garantir o êxito comercial dos seus filmes com a popularidade de que gozavam certas obras literárias. Não só obras menores: Eça, Camilo, Júlio Dinis, Abel Botelho, são autores que podem assegurar o interesse do público. «O Primo Basílio», «Amor de Perdição», «Os Fidalgos da Casa Mourisca», «Mulheres da Beira» entram nos projectos de produção da Invicta Film. É certo que, das obras desses romancistas, ficará, na sua transposição para o cinema, pouco mais do que a ilustração, perdendo-se muito do que representam como pintura e análise de uma sociedade e de uma época. Conserva-se intacto o conflito, mas diluem-se as suas profundas motivações. A obra mais conseguida de George Pallu ainda será Os Fidalgos da Casa Mourisca, de problemática mais simples: embates de sentimentos correlacionados com o confronto da decadência, os preconceitos de casta, o tradicionalismo, e a ociosidade duma aristocracia provinciana a afundar-se, com a emancipação do trabalhador rural, num esboço de luta de classes que já vem adoçada e conciliante desde a obra original. De Camilo ou Eça pouco mais será retido do que a urdidura anedótica de duas das suas obras mais famosas. O que, de resto, voltaria a acontecer mais tarde quando Camilo, Eça e Júlio Dinis foram retomados por realizadores portugueses e quando o cinema tinha já outra maturidade. A Rosa do Adro foi filmado quase totalmente em exteriores. As poucas cenas de interior tiveram de rodar num «plateau» improvisado no Salão-Jardim Passos Manuel à falta de instalações apropriadas. Os trabalhos de laboratório foram executados em Paris. Rosa do Adro faria a sua estreia, no Sá da Bandeira, do Porto, em Julho de 1919. Sem soluções de continuidade e no desejo de manter todos os seus sectores em actividade, a Invicta escolhe a peça satírica de Gervásio Lobato, O Comissário de Polícia, para entrar imediatamente em rodagem, enquanto se vão fazendo os trabalhos preparatórios do que viria a ser a super-produção daquela empresa produtora: cuidados trabalhos de adaptação, de escolha de locais, de contratação de artistas, para que as filmagens pudessem iniciar-se (e concluir-se) em 1920. Iria rodar-se Os Fidalgos da Casa Mourisca. «O ano de 1920 ― escreve Félix Ribeiro, em Invicta Film ― Uma organização modelar ― marca, incontestavelmente, uma data do maior significado e importância no panorama do historial da Invicta Film, pois foi, então, que dois acontecimentos do mais alto relevo tiveram lugar. Com efeito, nos começos do ano são dadas por concluídas as vultuosas e dispendiosas obras de construção de todo o complexo operacional da empresa portuense ― do estúdio e demais dependências ao laboratório e respectivo equipamento, bem como dos escritórios, armazéns para guarda e conservação de cenários e depósito de variado material. Por outro lado é, então, também, que tem início e se conclui a produção do filme Os Fidalgos da Casa Mourisca, que ficaria a marcar, indubitavelmente, um dos maiores êxitos do cinema silencioso português até então verificado, claramente demonstrativo da capacidade profissional dos que nele intervieram e, ao mesmo tempo, testemunhando o valor dos meios de toda a ordem, técnicos como artísticos, postos à disposição do realizador.» Ainda cheguei a ver, já ao abandono, prestes a ser demolido, o grande complexo de que se compunha a Invicta Film. Era a ruína de um sonho. Causava dó... Eis como o descreve Félix Ribeiro, tal como se inaugurou festivamente em princípios de 1920: «O estúdio ― teatro de «prise-de-vues» ou de pose, como, ao tempo, era mais conhecido nos países latinos, da França à Itália ― constituía uma ampla galeria construída de ferro e vidro, com os seus trinta metros de comprimento por vinte de largo e dezassete de altura, cuja disposição fora estudada de molde a poder ser aproveitada ao máximo a luz natural. Uma das partes laterais do imóvel, a que se encontrava voltada para o Nascente, deslocava-se lateralmente como se se tratasse de um monumental portão. O tecto era, igualmente, constituído por placas de vidro por forma a que a luz, quando necessário, pudesse penetrar no interior. Só mais tarde a luz artificial viria a ser utilizada por meio de baterias suspensas de lâmpadas de vapor de mercúrio e de arcos voltaicos. (...) Ao longo de todo o comprimento do estúdio estava instalada uma ponte rolante que permitia o transporte de grandes cenários e outros materiais, consentindo, ainda, filmagens a partir desse ponto de vista. Fazendo corpo com ele, mas exteriormente, existiam várias dependências: camarins de artistas, camarins para figuração, gabinetes do «metteur-en-scène» e do director artístico, e igualmente, para o decorador. Junto ao estúdio existia uma outra explicação dividida em dois sectores. Num deles estava instalada a central eléctrica, equipada com eficiente material, em que se destacava um motor Wolvering de 80 HP e outro da marca Bacherini, permitindo o fornecimento de energia de 300 ampéres. O outro sector destinava-se à oficina de carpintaria, sala de pintura e à guarda de cenários e adereços. Um segundo conjunto de edificações situava-se a pequena distância do estúdio: um edifício central de dois pisos ladeado por dois outros, com rés-do-chão e primeiro andar. No do centro situava-se a sala de recepção, a sala de reuniões da Administração, o gabinete do administrador-delegado e do gerente-técnico, o escritório geral e a sala de expedição. O edifício da esquerda era ocupado pelo laboratório, equipado com material Pathé, e sala de montagem. No edifício da direita encontravam-se instaladas as secções de «letreiros» (pois era a Invicta que se ocupava da elaboração das legendas em português, ou «letreiros», como então se lhes chamava, dos filmes estrangeiros que se exibiam em Portugal), a tipografia e, por último, a sala de projecções equipada com um projector de recente modelo da marca Pathé.» Os Fidalgos da Casa Mourisca, com exteriores filmados no Alto Minho, no solar conhecido por Torre de Lanhelas, junto da estrada que vai de Caminha para Valença, e na Tapada da Ajuda, foi a primeira produção saída dos novos estúdios. Com dez partes (cerca de 4500 metros) divididas em duas jornadas, o filme apresenta uma grande unidade e uma excelente ambientação, prova dos cuidados de que se revestiu o empreendimento. Da qualidade dos trabalhos laboratoriais fala por si o excelente negativo que, algumas décadas mais tarde, viria a ser descoberto e salvo pelo Cineclube do Porto e hoje se encontra na posse da Cinemateca Nacional. O êxito de Os Fidalgos foi retumbante e invulgar, tanto em Portugal como no Brasil. Ao rigor da encenação juntava-se a boa qualidade da fotografia, devida ao operador Maurice Laumann, recentemente contratado pela Invicta, e um apreciável desempenho de Pato Moniz, Duarte Silva, António Pinheiro, Etelvina Serra, Mário Santos, Erico Braga, Encarnación Fernandez, Salvador Costa, José Silva, Artur Sá e Adelina Fernandes. O reputado actor e encenador António Pinheiro viria, tempos mais tarde, a passar para trás das câmaras, dirigindo a farsa Tinoco em Bolandas (1922) e Tragédia de Amor (1924). 

Chegados aqui, tudo parecia indicar que iria estabilizar-se uma indústria cinematográfica portuguesa. Até porque, com o exemplo da Invicta Film, outras iniciativas, indo no seu rasto, tomavam vulto em Lisboa, como a seguir se verá. Foi tudo fogo de palha. A Invicta Film duraria apenas mais quatro anos. Desmoronava-se num ápice o que fora um grande e probo esforço. Na altura do lançamento de Os Fidalgos da Casa Mourisca, tudo, porém, parece correr pelo melhor. A produção vai prosseguir imediatamente com o melodrama Amor Fatal e a curta comédia burlesca Barbanegra. Os filmes são fracos. Foi talvez uma maneira de manter uma actividade ininterrupta enquanto tudo se preparava para um empreendimento de maior fôlego: a adaptação ao cinema do romance de Camilo, «Amor de Perdição», em que trabalhou o jornalista Guedes de Oliveira. George Pallu volta a aplicar a sua proficiência profissional, o seu rigor de encenação, o seu empenho, e o filme estreia-se, com êxito e muitas lágrimas do público, em Novembro de 1921, no cinema Olímpia, do Porto. Amor de Perdição restaura a tradição de qualidade dos filmes da Invicta. Entretanto, chegado ao Porto (em Agosto do mesmo ano) à procura de trabalho, o realizador italiano Rino Lupo apresentava-se na Invicta Film. É o próprio George Pallu quem aconselha a Administração a confiar ao recém-chegado a realização de Mulheres da Beira, segundo um conto de Abel Botelho. O italiano dirá de si próprio, em entrevista concedida ao «Diário de Lisboa»: «... como «metteur-en-scène», sou um pintor. Deixo accionar livremente toda a minha fantasia, vejo os aspectos e os panoramas, fixo-os e idealizo depois o quadro a reproduzir. Mulheres da Beira será, pois, se me consentem a audácia, um verdadeiro filme de arte, de emoção e de beleza campesina. Dei toda a alma a um assunto português, adaptando-me, quanto pude, aos vossos hábitos, aos vossos costumes e ao vosso sentimento.» Rino Lupo ― romano de nascimento e nómada do cinema, pois exercera a sua profissão de realizador de filmes, sucessivamente, em Paris, em Copenhague, em Moscovo e em Varsóvia deu, de facto, boa conta de si. Mas a Invicta não concorda com os seus métodos de trabalho: improvisação e pouco respeito por planos prévios de trabalho, e rescinde o contrato. George Pallu fica de novo sozinho com dois projectos de responsabilidade nas mãos: a realização de O Destino, com argumento original de Ernesto de Menezes, jornalista e crítico de teatro, e O Primo Basílio, adaptação da obra célebre de Eça de Queirós. A história de O Destino tinha sido imaginada a pensar em Palmira Bastos, destacada figura do teatro português. Pallu esmerou-se na realização e o filme resultou um dos maiores êxitos do cinema português, mantendo-se em cartaz durante largo tempo. Mas da protagonista, o crítico da revista «Porto Cinematográfico» diria: «Palmira Bastos, a quem coube o principal papel, vence com alguma dificuldade as contrariedades de uma primeira apresentação ante a câmara cinematográfica.» (Uma coisa não tem nada com outra, mas talvez seja curioso apontar ter Palmira Bastos declarado uma vez detestar Charlot...) Quanto a O Primo Basílio, custou alguns amargos de boca à Invicta Film. Contra o filme e contra a empresa produtora levantaram-se tão violentas campanhas em alguns jornais que chegou a pensar-se em desistir da exploração do filme em Portugal. O filme era uma baça ilustração da obra literária, de que só ficou o enredo, rigorosamente respeitado. No entanto tinha qualidades que (tal como aconteceria com uma segunda versão de Amor de Perdição) não foram ultrapassadas quando, anos mais tarde, António Lopes Ribeiro retomaria o mesmo tema, sem garra nem invenção, já o cinema era sonoro... Para essa primeira versão de O Primo Basílio (que tanta puritana celeuma levantou... e eram bem discretas as cenas de amor no «Paraíso») foram contratados nomes de relevo na cena portuguesa: Ângela Pinto, António Pinheiro, Amélia Rey Colaço, etc. Por desgraça, coube a Robles Monteiro o papel de Basílio, que fez do ardiloso sedutor uma espécie de empenado e deselegante Casanova da Rua dos Correeiros... Em compensação a grande Ângela Pinto encarnou à criada Juliana na perfeição. Tínhamos chegado ao ano de 1922. A nenhum português mordera ainda o bicho do cinema o bastante para se igualar aos estrangeiros aqui chamados. António Pinheiro, essencialmente homem de teatro, não foi além de pisar métodos que já estavam a envelhecer; e Augusto de Lacerda, jornalista e autor teatral, não passou do filme Tempestades da Vida, que realizou para a Invicta pouco depois de António Pinheiro ter dirigido a comédia-farsa Tinoco em Bolandas. O filme de Augusto de Lacerda esteve para se chamar Náufragos da Vida. Presságio? No ano seguinte acentuava-se o declínio da Invicta Film, que se saldaria por um completo afundamento. 

Em 1923 a Invicta começou a sentir a necessidade de alargar o mercado para os seus filmes. Alias, o cinema tinha andado mais depressa do que os responsáveis pela Invicta supunham. Não só do ponto de vista técnico e artístico, mas também do ponto de vista comercial e industrial. Os filmes da Invicta ressentiam-se da comparação que o público fazia com o cinema que lhe vinha de fora e da concorrência comercial do filme estrangeiro. Assiste-se, então, a algumas transformações: aumento de capital, reapetrechamento técnico e um olho noutros mercados, que se supôs ser possível interessar contratando uma artista francesa. George Pallu vai a Paris e traz de lá Francine Mussey. A gentilsinha actriz não é o remédio de que a Invicta necessita para revolver a grave crise financeira que começa a enfrentar. Num país com um pequeno número de salas de cinema, sem saída fácil para as suas produções e sem possibilidades de expansão para dentro e para fora do país, onde a concorrência é, a todos os níveis, cada vez mais forte; sem qualquer apoio a nível de Estado, que, por sua vez, enfrentava constantes problemas e inquietantes crises económicas e políticas, a Invicta Film, tão modelarmente erguida poucos anos antes, irá soçobrar. Cláudia e Lucros ilícitos (1924), filmes medíocres e incaracterísticos (que se pretendem «modernos», com a jovem francesinha a dar-lhes um ar de frescura) serão o «canto do cisne» da empresa portuense. De 1925 a 1928 , a Invicta, já em vias de liquidação, ainda conservará alguma actividade laboratorial, mas essa mesma (confecção de legendas para os filmes estrangeiros) lhe será arrebatada pela Distribuidora J. Castello Lopes que, para o efeito, montou laboratório próprio, em Lisboa. Até que um dia (2 de Janeiro de 1931) é mesmo o fim. Todos os haveres da firma vão a leilão e o Estúdio, já posto ao abandono após uma última utilização por Rino Lupo para filmar os interiores de José de Telhado, será demolido. Tudo isto, de certo modo, pode parecer paradoxal. Mas já não o parecerá tanto se atentarmos melhor no que se passou (e que, afinal, não serviu de lição na altura nem ao longo do tempo). A derrocada da Invicta Film enraíza na desatenção aos exemplos da História do Cinema. Os fundadores e dirigentes da Invicta Film, ao montarem essa arrojada empresa, com um grande estúdio, óptimo equipamento e eficientes laboratórios, devem ter minimizado a importância da distribuição ou exploração directa da sua produção. Se, paralelamente ao esforço de organização da produção de filmes, tivessem criado um sistema de escoamento (uma rede de cinemas próprios, por todo o país, e agência de vendas em alguns centros estrangeiros), talvez a Invicta tivesse podido evitar a derrocada a breve termo, derrotada pelo fluxo do filme estrangeiro e falta de mercados. Mais do que uma vez, na sua Histoire Générale du Cinéma, George Sadoul aponta a distribuição como condicionante da produção. Isto é: só a eficiência da primeira pode garantir a continuidade da segunda. Por outro lado, os poderes públicos ― nem por sua própria iniciativa nem a solicitação instante dos interessados ― tão-pouco prestaram qualquer auxílio ou protecção à nascente indústria cinematográfica portuguesa. Enquanto a nova indústria procurava desenvolver-se sozinha, o mercado nacional mantinha-se escancarado à inevitável invasão de cinematografias expansionistas e bem organizadas, logo que se apagou o rescaldo da Primeira Grande Guerra. Tardiamente e com uma curtíssima visão das coisas, a primeira «protecção» que o Estado concede ao cinema português vem no decreto de 6 de Maio de 1927: a obrigação de incluir em todos os espectáculos cinematográficos um documentário português com a metragem mínima de 100 metros. Como é óbvio, este decreto, que ficou conhecido por «a Lei dos cem metros», não deu sequer para criar documentaristas e acabou por ser esquecido antes mesmo de ter sido revogado. No futuro, outras leis proteccionistas virão permitir a realização de um certo número de filmes (muitas vezes em pura perda), mas nunca servirão para assegurar e estabilizar uma cinematografia nacional capaz de cumprir uma função socio-cultural. Por outro lado ainda, seguindo uma tradição (Portugal sempre importou técnicos e artistas) a Invicta importou cineastas. Até aqui nada de mal. Só que a empresa não soube renovar os seus quadros. George Pallu era um homem culto, inteligente, honesto, proficiente, mas... fôra formado na escola do «Film d’Art», quando ainda o cinema era balbuciante como meio de expressão. E se, durante um ano ou dois, os filmes da Invicta puderam pôr-se a par da produção corrente que vinha de fora, em breve ia sobrar-lhes em regionalismo o que lhes faltava em qualidade e invenção formal. Na Invicta, todos pareciam alheios ao desenvolvimento do fenómeno cinematográfico que estava a operar-se por todo o lado... (Manuel de Oliveira ainda andava de bibe). E a situação agravou-se quando se deu o enfraquecimento económico (que, por certo, não se venceria mesmo que se tivesse concretizado o projecto de fusão ou cooperação com a Fortuna Film, fundada pela escritora Virginia de Castro e Almeida por volta de 1922, em Lisboa, e produtora de Sereia de Pedra e Os Olhos da Alma, realizados Pelo francês Roger Lion). Bem vistas as coisas ― e o caso da Invicta deveria ter-se sempre presente ― a decadência e ocaso dos Estúdios da Prelada estavam à vista muito antes do termo da sua existência. Era inevitável. 

Informação retirada de Breve História do Cinema Português (1896-1962) de Alves Costa

História do Cinema em Portugal - Os passos incertos dos «primitivos» - O florescimento do espectáculo cinematográfico em portugal


Tudo quanto se fez em Portugal, em matéria de cinema, desde 1896 até 1912, não vai muito além do que já havia sido feito por Aurélio da Paz dos Reis, uns anos antes. Assim, quando, em 1899, Manuel da Costa Veiga funda, com o operador Bobone, a primeira empresa produtora e distribuidora de filmes: a Portugal-Film, limita-se à realização de alguns documentários (Praia de Cascais, Parada de bombeiros, Exercícios de artilharia em Belém, etc.) e reportagens das visitas a Portugal de Afonso XIII, Guilherme II, o Presidente Loubet e o Príncipe de Gales. Será preciso esperar mais uns anos para encontrarmos (em 1908) o fotógrafo João Freire Correia e Manuel Cardoso (que já tinha montado um laboratório cinematográfico) à frente de uma nova empresa, a Portugália Film, igualmente produtora de documentários e de algumas reportagens (das quais ficou famosa a do terramoto de Benavente, de que se venderam mais de vinte cópias para o estrangeiro.) Cardoso e Correia chegaram a iniciar as filmagens de uma fita de enredo, Os crimes de Diogo Alves, que não conseguiram concluir. Seria um dos intérpretes, João Tavares, quem, em 1910, levaria o projecto até ao fim. Esta segunda versão de Os crimes de Diogo Alves (de que existe uma cópia na Cinemateca Nacional.) marca o início da produção de filmes de enredo em Portugal, mas não terá imediata continuidade. Em 1911, o actor Carlos Santos filma uma Inês de Castro, cuja cópia se perdeu; e, oito anos mais tarde, Emídio R. Pratas realiza Pratas conquistador, filme medíocre de imitação dos filmes cómicos italianos e primeira farsa do cinema português. Foi outra tentativa isolada. Com ela encerra-se, por assim dizer, o «período dos primitivos» do cinema português, cerca de catorze anos mais ricos de frustrações do que de experiências e iniciativas criadoras. 

Entretanto, o cinema, como espectáculo, assentara arraiais em Portugal. E desde logo conquistou não só um público popular, que no animatógrafo encontrava entretenimento barato, variado e acessível, mas também a burguesia e certos sectores intelectuais, que não desdenharam da novidade, quando em 1904 abriu, em Lisboa, o primeiro «animatógrafo»: o Salão Ideal, a que outros imediatamente se seguiram. No Porto, foi em 1906 que se inaugurou o primeiro cinema: o Salão HighLife. Era um grande barracão de madeira, integrado na Feira de S. Miguel, na Boavista. Dado o êxito do empreendimento, que se deve ao espírito de iniciativa de Manuel Neves, associado ao francês Edmond Pascaud, recentemente chegado ao Porto com um projector e algumas fitas da Casa Pathé, este barracão transferiu-se,nesse mesmo ano, para o Jardim da Cordoaria e, um pouco mais tarde, tomaria assento definitivo na Praça da Batalha, de que viria, anos volvidos, a tomar o nome. Por esses e outros «animatógrafos», que por volta de 1910 funcionavam em cheio, iria passar a torrencial produção dos estúdios de Vincennes e da Casa Gaumont, a par dos filmes dinamarqueses de «Nordisk», dos dramas e fitas históricas vindos de Itália, dos burlescos de Mac Sennett, dos filmes de aventuras americanos, dos primeiros «Charlots». O cinema tinha andado muito depressa, não só em França e nos Estados Unidos mas também em países que começaram a fazer filmes depois de Paz dos Reis. Portugal estava largamente ultrapassado quando, em 1918, se fundou no Porto a Invicta Film, primeira tentativa de criação, entre nós, de uma indústria cinematográfica. 

Em 1910 tinha-se implantado a República em Portugal. Aos novos governantes, diga-se de passagem, não escapou totalmente a importância do cinema. Infelizmente foi letra morta o decreto que introduzia o filme na Escola como instrumento auxiliar do ensino. E quando Portugal entrou na Primeira Grande Guerra Mundial, logo foi criado um serviço cinematográfico, junto do Exército, que realizou uma série de documentários. Só não apareceu um cineasta capaz de empunhar uma câmara de filmar para retratar ou exaltar a grande transformação socio-política por que o país tinha passado... 

Cabe aqui referir que foi nessa altura que apareceu a primeira censura a filmes, o que veio provocar um insólito incidente: Em 1914 começava a grande conflagração mundial. Em 1917, com a Europa em fogo, já Portugal tinha entrado na Guerra, ao lado das Nações Aliadas, para cumprir os compromissos assumidos pelo tratado de aliança com a Inglaterra e salvar as colónias da cobiça das grandes potências. Este estado de emergência obrigou a medidas de excepção. E, assim, o «Diário do Governo» n.º 155, 1.ª série, de 10 de Setembro daquele ano, publicava o Decreto n.º 3354 com o seguinte teor: 

1.º ― Nenhuma fita cinematográfica, de qualquer natureza ou procedência, que contenha assuntos militares ou directa ou indirectamente ou faça alusão aos exércitos beligerantes ou à Grande Guerra, poderá ser exibida nos territórios da República sem previamente ser sujeita à censura militar; 2.º ―  Os importadores ou proprietários das referidas fitas devem solicitar o seu exame prévio e o competente documento de livre exibição, no Ministério da Guerra, por intermédio da 4.ª Repartição da 1.ª Direcção-Geral da Secretaria da Guerra; 3.º ―  As fitas que forem encontradas em contravenção das disposições acima serão apreendidas e os seus proprietários ou empresários autuados por desobediência. 

Assinam este Decreto: Bernardino Machado (Presidente da República) e José Mendes Ribeiro Norton de Matos (Ministro da Guerra). 

Foi assim, pela primeira vez em Portugal e apenas para um caso particular, instituída a censura aos filmes. Ora, por causa desta medida, deu-se, passados poucos dias, um inesperado incidente: 

No dia 20 de Setembro de 1917 estreava-se no cinema Polyteama, de Lisboa, o filme Civilização, monumental película americana realizada em 1915, para a «Triangle», por Thomas Ince, tendo a empresa exploradora daquela casa de espectáculos requerido o respectivo exame prévio e, para o efeito, convidado o próprio ministro da Guerra, general Norton de Matos, a ver o filme, ao que ele acedeu, tendo sido passada, subsequentemente, pelo Ministério da Guerra, a devida autorização para o filme ser exibido livremente em público. Civilização era um filme de guerra discretamente inspirado no sangrento conflito europeu. Mas era um filme pacifista, por tendência que possivelmente teria sido incutida em Thomas Ince pelos interesses que dominavam a «Triangle». O pacifismo e a defesa da neutralidade americana caracterizavam quase todos os filmes de Hollywood, durante os dois primeiros anos das hostilidades, o que correspondia à posição da opinião pública. Em boa verdade, o filme tinha sido feito no fito de ganhar dinheiro com o pretexto de apoiar as ideias neutralistas em que assentava a campanha eleitoral do Presidente Wilson. E, de facto, tendo custado à roda de 100 000 dólares, rendeu 800 000. Não obstante, Civilização foi um dos filmes mais notáveis da sua época. Influenciado, em parte, pela tradição dinamarquesa e italiana, exerceu, por sua vez, uma grande influência sobre o cinema americano e sobre muitos realizadores europeus (entre os quais se aponta Abel Gance com o seu filme J’accuse). Tematicamente, o filme era um requisitório contra as desgraças ocasionadas pelas guerras. No decorrer da intriga, o espírito de Cristo vem à Terra (a fita tinha como subtítulo: «Aquele que regressa») para se encarnar num dos personagens. Este personagem era insultado e perseguido por ter querido restaurar a paz no mundo, mas acabava por triunfar das forças do mal. Todo o filme (realizado em décors monumentais, com uma mise-en-scène que exigiu a actuação de 40 000 figurantes) era de uma ingénua grandiloquência, carregada de pesados simbolismos, e sublinhava as consequências da guerra: privações, separação, destruição, tragédias, etc. O argumento tinha sido escrito por Gardner Sullivan e totalmente realizado por Thomas Ince, desde a «planificação», a escolha dos exteriores e a selecção dos intérpretes, até à encenação e montagem. Na Europa, em plena guerra, houve quem pensasse que o filme não era favorável à causa dos Aliados. Assim, foi manipulada uma versão, que lhe alterava um tanto o sentido, para ser exibida na Inglaterra e na França. Não sei se a cópia que veio para Portugal era ou não a versão original. Civilização foi exibido seis noites consecutivas no écran do Polyteama, sempre com grande interesse do público. Ao sétimo dia, com grande surpresa, o cinema recebeu uma contra-fé da polícia intimando-o a retirar imediatamente o filme de exibição. Pareceu, porém, à empresa do Polyteama que a autorização passada pelo Ministério da Guerra não podia ser anulada por uma simples ordem da polícia e, assim, nesse sétimo dia decidiu cumprir o programa anunciado exibindo o filme. Sabido isto, saiu um piquete do Governo Civil para impedir que se realizasse o espectáculo, logo seguido por uma força de cavalaria da Guarda Republicana para cercar o cinema. Mais papistas do que o Papa, e de acordo com ordens recebidas, os polícias prenderam o secretário da empresa e os projeccionistas. Surdos a todas as razões, confiscaram o filme e puseram os assombrados espectadores na rua... onde tamanho aparato já fizera juntar gente. No dia seguinte, a empresa publicava um veemente protesto contra aquela ocorrência que nada justificava. E o que é verdade é que, remetidos os presos ao Tribunal, ali foram absolvidos e mandados em paz por se provar não ter havido a desobediência invocada ao abrigo do n.º 3 do citado decreto. E a fita foi restituída aos seus donos. Mas... (e aqui está o mais curioso do incidente) a polícia manteve a proibição de exibição da fita, segundo ordem do Governo Civil, sem que o Ministério da Guerra tivesse feito valer a autoridade da licença que tinha passado. «Tudo isto não faz sentido ― comenta a «Cine-Revista» no seu número 8, de 15 de Outubro de 1917 ― e perante a eloquência de tão estranhos factos fica-se sem saber como proceder em circunstâncias semelhantes, pois que, para já, não se sabe qual é a verdadeira e suprema autoridade.» Este gostinho pelas proibições prepotentes e arbitrárias viria a ser prato do dia ― e não acidente ocasional ― quando, alguns anos mais tarde, o governo de Salazar generalizou a censura a todo o género de filmes, o que não deixaria de acarretar nefastas consequências para o cinema português e para a cultura cinematográfica em Portugal. Aos cineastas portugueses iria ser negada a liberdade de expressão e de abordagem de determinados temas, e, ao filme estrangeiro, a tesoura seria aplicada com particular ferocidade. Por sorte, num período de transição para a ditadura absoluta, ainda o público português pôde ver algumas fitas (como A Mãe, de Pudovkine, A Linha Geral, de Eisenstein, A Tempestade na Ásia, de Pudovkine) que não tardariam a ser consideradas «perigosas»... mesmo com alguns cortes. Mas em 1918, quando se abria um novo capítulo na história do cinema português, com a criação da InvictaFilm, no Porto, o cinema ainda era relativamente livre. Simplesmente, o cinema português, entre 1917 e 1925, volta-se para o passado, é feito por estrangeiros e passa ao lado das transformações que se tinham dado, dos problemas que o país enfrentava, das lutas políticas que se desencadeavam, da realidade circundante que parece ignorar. E essa realidade estava nos primeiros e difíceis passos da jovem República, nas reivindicações da classe operária, no movimento revolucionário de Sidónio Pais, na entrada de Portugal na Grande Guerra, nas novas correntes intelectuais, na progressiva transformação da sociedade portuguesa. Com esta observação, eu não quero tirar o mérito (nem ensombrar a homenagem que se lhe deve) ao homem de iniciativa que foi Alfredo Nunes de Matos, o obreiro perseverante e consciente dessa organização perfeita que foi a Invicta-Film, primeira tentativa a sério de montar em Portugal uma grande empresa produtora de filmes. Na realidade, e apesar de tudo, a Invicta-Film marcou um ponto alto na história da nossa cinematografia. Se Alfredo Nunes de Matos e os seus mais directos colaboradores tivessem pensado (e ainda hoje isso se esquece) que a produção depende da exibição, assegurando o largo escoamento e expansão dos filmes produzidos pela Invicta-Film com o mesmo cuidado que foi posto na montagem da nova indústria, talvez a empresa tivesse dominado as suas crises e resistido à concorrência tentacular das cinematografias estrangeiras, nomeadamente a americana. Assim, ultrapassada rapidamente, na qualidade, por um boa parte da produção que nos chegava de fora e abafada pela torrencial entrada de filmes estrangeiros, a Invicta-Film, chama ateada no Porto com tanta decisão e entusiasmo, apagar-se-ia em 1925. O seu nascimento, o seu apogeu e o seu declínio merecem um capítulo à parte. 

Informação retirada de Breve História do Cinema Português (1896-1962) de Alves Costa

História do Cinema em Portugal - Aurélio da Paz dos Reis - O Pioneiro Português


No dia 12 de Novembro de 1896, portanto a menos de um ano de distância da primeira sessão pública com o «cinematógrafo Lumière», um português, Aurélio da Paz dos Reis, conhecido e estimado comerciante portuense e grande amador fotográfico, apresentava, por seu turno, no Teatro Príncipe Real, do Porto, os primeiros filmes portugueses. Pouco se sabe sobre o aparelho que Paz dos Reis utilizou para filmar e projectar as suas fitas. Algumas vezes se afirmou ter Paz dos Reis ido a Paris e conseguido dos irmãos Lumière a venda de um «cinematógrafo». Nada o confirma. Bem pelo contrário. No aparelho dos Lumière só passavam películas com uma perfuração circular de cada lado do fotograma. Os filmes de Paz dos Reis (de que possuo dois fragmentos de um deles), em película da marca «Eastman», apresentam quatro perfurações quadrilongas de cada lado do fotograma. Em face desta circunstância concludente, levantam-se duas hipóteses. Ou Paz dos Reis viu o aparelho Lumière  (ou alguma das suas imitações, que já as havia quando se diz ter ele ido a Paris) e mandou construir aqui uma máquina semelhante a que deu o nome de «kinetographo portuguez», coisa a encarar com reservas mas plausível se quisermos acreditar no que se lê no Programa da sessão realizada em Braga em 21 e 23 de Novembro de 1896: «O kinetographo é um aperfeiçoamento dos aparelhos denominados animatógrapho, cinematógrapho, vitagrapho, etc. que há perto de um ano teem obtido o maior dos sucessos em todas as capitais onde se teem exibido»; ou trouxe de Paris um outro «cinematógrafo», como o que foi patenteado pelos irmãos Werner com o nome de «cinégrapho» mas designado, também, tempos depois, por «kinetógrapho». Esta segunda hipótese é mais aceitável e é para ela que se inclina A. Videira Santos, que procurou investigar o assunto e dele trata no seu livrinho Paz dos Reis ― cineasta ― comerciante ― revolucionário. Mas há aqui um facto curioso. Aurélio da Paz dos Reis, ao anunciar as suas «projecções luminosas a luz eléctrica, em tamanho natural, de photographia animada», cita o cinematógrafo e o vitagrafo e refere o nome de Edison como inventor do cinema. Não cita o nome dos Lumière. O que me parece estranho, embora a citação do nome de Edison, mundialmente famoso e admirado, pudesse ter sido um expediente publicitário De resto, na pré-história do Cinema, há ainda muita coisa imprecisa, de difícil investigação e contraditória. Comparemos, agora, algumas datas. Os Lumière apresentam o seu cinematógrafo, em Paris, em 28 de Dezembro de 1895. Quase ao mesmo tempo que Edison começava a vender o seu deficiente projecting kinetoscope, os Werner registam o seu cinégrafo em Fevereiro de 1896, que depois vendem com o nome de kinetógrafo. Só em Abril desse mesmo ano Edison apresenta o vitascope. Por sua vez, Paz dos Reis apresenta o kinetógrafo português em 12 de Novembro de 1896. Ora, se aceitarmos que Paz dos Reis tinha conhecimento dos novos aparelhos americanos, o facto de citar o vitagraph põe em causa a exactidão do que nos diz Georges Sadoul ― considerado uma autoridade em matéria de história do cinema ― a páginas 332 da sua Histoire Générale du Cinema ― vol. 1 ― L’invention du Cinéma. Diz Sadoul que, em 1896, tendo Edison começado a vender um projector a que chamou «projecting kinetoscope», Blackton, associado a um dos seus amigos, de nome Smith, tinha conseguido adaptar este aparelho a máquina de filmar e projectar, dando-lhe o nome de «vitagraph». Este mesmo nome seria dado, mais tarde, à Companhia produtora de filmes que os mesmos indivíduos fundaram. E Sadoul afirma que o primeiro filme feito com o «vitagraph» é datado de Novembro de 1897. Sendo assim, como é que Paz dos Reis, aqui em Portugal, já se refere ao «vitagraph» um ano antes?! Este simples pormenor vem provar como isto de datas e de prioridade de inventos, é ainda, muitas vezes, matéria nebulosa e incerta, por incertas e nebulosas serem frequentemente as fontes de informação. O mesmo se dá quanto à autoria de certos filmes primitivos, regra a que não fogem algumas obras atribuídas a Paz dos Reis, com a agravante de nem uma só se ter salvo. A única coisa sobre que não restam duvidas é que se chegou ao cinema, melhor ou pior, aqui, ali e além, na Europa e na América, quase simultaneamente, apenas com curtas ultrapassagens pelo caminho. Aurélio da Paz dos Reis nasceu no Porto em 28 de Julho de 1862. O pai era negociante, a mãe dirigia uma casa de modista. No Porto fez Aurélio os seus estudos,  não chegando a completar o curso dos liceus. Não obstante seu avô ser miguelista ferrenho, as inclinações políticas de Aurélio da Paz dos Reis voltavam-se para a República, tendo participado nos acontecimentos do 31 de Janeiro, pelo que chegou a estar preso. Não se sabe ao certo se participou activamente na revolução ou se, apenas, o seu entusiasmo pelas ideias republicanas o levou a juntar-se aos revolucionários, que viriam a ser tragicamente dominados. Não há dúvidas, porém, de que participou em comícios republicanos. Assinalam os jornais da época que «no decorrer de um grande comício realizado próximo do Campo 24 de Agosto, em 1908, Aurélio da Paz dos Reis fez a entrega de um ramo de camélias a Bernardino Machado.» A Monarquia estava por um fio e a derrota do 31 de Janeiro não esfriara o seu republicanismo. Não foi, porém, como político que mais se destacou. No Porto era muito estimado pelo seu carácter, pelo seu trato, pela sua verticalidade e honradez de comerciante. Aqui criou e desenvolveu um negócio de sementes, flores e artigos de jardinagem. A sua «Flora Portuense» situava-se no local onde hoje existe a confeitaria Ateneia, na Praça da Liberdade, e era abastecida pelas plantas que cuidadosamente cultivava no quintal da sua residência, na Rua de Nova Cintra, 125. As suas culturas ficaram famosas e muitas das espécies que saíam do seu horto levavam Certificado de Origem. O floricultor Paz dos Reis, que chegou a ter um comércio de vulto e relações com horticultores franceses e holandeses, era também um grande amador fotográfico. Deste gosto pela fotografia viria o seu entusiasmo pelas imagens animadas logo que delas tomou conhecimento. E daí ter procurado imediatamente adquirir uma máquina de filmar e projectar, que teria trazido de França com alguns filmes Porque lhe chamou kinetógrafo português? Não se sabe. O certo é que Paz dos Reis rodou e projectou os primeiros filmes portugueses em 1896, quando o cinema dava ainda passos incertos e estava pouco seguro dos caminhos por que iria seguir no futuro. 


Dos filmes de Aurélio da Paz dos Reis nada resta. O que torna ainda mais difícil estabelecer uma filmografia com exactidão. Como um dos raros elementos de referência ficou, felizmente, um programa da sessão realizada no Teatro de S. Geraldo, de Braga, em 21 e 23 de Novembro de 1896. Mas ali aparecem alguns títulos que não devem atribuir-se a Paz dos Reis, pois deve tratar-se dos filmes que teria trazido de França: Um boulevard-Paris, Manobras de Bombeiros, Lutadores Franceses, Dança Serpentina Loie Fuller e, possivelmente, também O jardineiro ― cena de um cómico irresistível (L’arroseur arrosé, de Lumière?). Coligindo elementos dispersos, A. Videira Santos, estabeleceu, no entanto, a seguinte lista:  Chegada de um comboio americano a Cadouços ― A Rua do Ouro ― Azenhas do Rio Ave ― Jogo do pau ― Feira de S. Bento ― No jardim ― Saída do pessoal operário da Fábrica Confiança- Feira de gado na Corujeira ― Cortejo eclesiástico saindo da Sé do Porto no aniversário da sagração do Eminentíssimo Cardeal D. Americo ― Marinha no Tejo, saída de dois vapores ― O Zé Pereira na Romaria de Sto. Tirso ― A dança serpentina e ainda A caninha verde ― Rua Augusta ― Movimento e ruas de Lisboa ― Braga ― Coimbra ― Barcelos ― Senhor de Matozinhos ― Costumes de aldeia (oito títulos que foram colhidos na imprensa do Rio de Janeiro, que os indica como fazendo parte do reportório do «kinetógrafo português» em terras brasileiras, o que e aconselhável tomar com alguma reserva.) A estes, Félix Ribeiro, em A maravilhosa História da Arte das Imagens, acrescenta: Rio Douro ― Mercado do Porto ― Torre de Belém ― Avenida da Liberdade ― O Vira (títulos que devem encarar-se igualmente com reservas, pois alguns deles podem referir-se aos «quadros fixos» que Paz dos Reis levou ao Brasil.) Quanto ao filme A dança serpentina, referido por A. Vieira Santos (op. cit.) na filmografia que cuidadosamente procurou estabelecer, podem levantar-se algumas dúvidas. Por um lado, A. V. S. é peremptório na nota que se segue à indicação desse título (sem, no entanto, dizer como e onde recolheu as informações que presta): «Neste filme, a então na moda dança dos véus, foi executada por uma actriz brasileira que no Verão de 1896 interpretava no Porto um papel na peça de Schwalbach, «Os filhos do capitão-mor»: Cintra Polónio, que na altura contava 35 anos. A película teria sido filmada no quintal de Paz dos Reis, onde a actriz executou a dança celebrizada por bailarinas estrangeiras». Ora, no programa da sessão realizada em Braga está indicado o título Dança serpentina Loie Fuller. O próprio A. Videira Santos, em notas à filmografia de Paz dos Reis, diz que este filme é francês. Teria Paz dos Reis realizado um filme cópia deste? Videira Santos não o explica. O que se me afigura é que o filme referido no programa é um dos antigos filmes americanos dos kinetoscópios que passaram posteriormente para o cinematógrafo. A ele se refere Georges Sadoul: «Este filme foi apresentado em França com o nome de Dança da Loie Fuller e era interpretado por Annabelle, jovem dançarina da Broadway. Sabe-se que a dança serpentina, que tornou célebre Loie Fuller, era executada com a bailarina envolta em longos véus sobre os quais se projectavam fachos luminosos de várias cores, o que permitia evocar ora uma flor, ora uma borboleta. Sem estes efeitos coloridos a dança serpentina perdia muito do seu atractivo. Em face disso, os produtores encarregaram M.e Kuhn, especialista nestes trabalhos, de pintar, fotograma a fotograma, uma cópia de A dança de Annabelle (assim se intitulava o filme na América) para o transformar num filme colorido.» (Histoire Genérale du Cinema ― Vol. 1, pp. 250.) De que se trata, afinal? Do filme americano? De um plágio deste, feito em França? De um filme de Paz dos Reis em que Cintra Polónio, tal como Annabelle, imitava a Loie Fuller? Trata-se de dois filmes distintos? Como nada resta da obra de Paz dos Reis, difícil será averiguar. As projecções feitas em Portugal por Paz dos Reis ― talvez por deficiências técnicas ― não despertaram mais do que um momentâneo movimento de curiosidade. O dinheiro investido no «kinetógrafo português» e nos filmes realizados não foi recuperado. Paz dos Reis pensou, então, no Brasil e para lá partiu em 8 de Dezembro de 1896, com máquina, filmes e vistosos cartazes publicitários. No Rio de Janeiro, por circunstâncias várias, entre as quais uma chuva torrencial, o êxito não foi por aí além. Em Fevereiro já Paz dos Reis estava de novo no Porto, desiludido. Abandonando o cinema, voltou às suas flores e outras ocupações (fez parte de algumas vereações da Câmara Municipal do Porto). Em 1919, por ocasião da epidemia da pneumónica, morrem-lhe três dos seus quatro filhos. Foi um golpe muito duro que não deixou de pesar nos dias que se lhe seguiram. Doze anos mais tarde, a 19 de Setembro de 1931, acometido de congestão cerebral, morria Aurélio da Paz dos Reis, autêntico pioneiro do cinema português, aqui realizando filmes antes mesmo da Espanha, da Itália, da Rússia, da Suécia e da Noruega. «Se é certo que Paz dos Reis seguiu muito de perto os assuntos já tratados e que teria visto em França, o facto é que ninguém lhe pode negar a glória de ter sido o primeiro português a realizar filmes, numa altura em que o cinema era ainda quase desconhecido na maior parte do mundo.» 1 Infelizmente, não teve imediatos continuadores. Nem ânimo sobrou a Paz dos Reis para superar as primeiras desilusões. Começou demasiado cedo. E assim se perdeu a oportunidade por que passou o cinema português de nos legar alguma coisa sobre o nascimento da República cujos ideais Paz dos Reis abraçara desde muito novo. O cinema português nascia e morria naquele ano de 1896. Para só renascer alguns anos mais tarde. 

Informação retirada de Breve História do Cinema Português (1896-1962) de Alves Costa

Gary Cooper


Durante muitos anos os americanos sonharem em ser como ele. Dono de uma beleza dura mas contagiante, de uma pose humilde mas determinada, Gary Cooper foi o heroi de mais do que uma geração. Em trinta anos de carreira tornou-se num dos mais bem sucedidos e amados actores de sempre. E mesmo a polémica que envolveu a sua vida privada (a sua relação extra-matrimonial com Patricia Neal) nunca alterou a sua imagem de galã e cavalheiro.
A sua estreia no cinema data do periodo mudo e em 1927 é um dos actores de Wings, o primeiro filme oscarizado. Nos anos seguinte consagra-se em filmes como Morroco, A Farewell to Arms e Now and Forever. Em 1936 trabalha pela primeira vez com Frank Capra que o escolhe para iniciar a sua triloga sobre o comum americano. Em Mr Deeds Goes To Town faz o seu melhor papel até à data e é nomeado ao óscar .A sua cotação está em alta e dá-se ao luxo de rejeitar em 1939 papeis em Stagecoach e Gone With the Wind. Entre 1941 e 1943 os seus maiores desempenhos de cada ano são nomeados ao óscar. Vence na primeira tentativa por Sargeant York, mas está perto de repetir a façanha em The Pride of the Yankees e For Whom the Bell Tolls. A sua amizade com o escritor Ernst Hemingway (que cometerá suicidio um mês após a morte de Cooper), torna-o popular entre a comunidade intelectual. Para trás ficou o sucesso de The Westerner e Meet John Doe, o capitulo final da trilogia de Capra. Em 1949 trabalha com King Vidor em The Fountainhead e conhece Patricia Neal que será sua amante até à morte.Em 1951 está pela primeira vez em 15 anos fora do top 10 dos actores favoritos do público. É no entanto no ano seguinte que consegue o seu melhor desempenho em High Noon, fazendo um comeback triunfal que lhe dá o seu segundo óscar. A partir daí vai progressivamente abandonando o cinema. O cancro que o levará à morte em 1961 deixa-o apenas voltar a brilhar uma vez mais, em Man of the West de Antohny Mann. Com a morte de Cooper, Hollywood começava a encerrar um capitulo dourado da sua história.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Henry Fonda


A familia Fonda está intimamente ligada à história do cinema nos últimos oitenta anos. Apesar de todas as polémicas que o envolveram ao longo da careira, Henry Fonda soube sempre manter-se igual a si mesmo. Antes de morrer teve a justiça que merecia.
"Hank" Fonda chega em 1935 a Hollywood. Partilhava um quarto com James Stewart enquanto tinha aulas de representação com a mãe daquele que viria a ser Marlon Brando. Pelo meio fica um passado cheio de casos, o mais famoso dos quais foi o polémico casamento com Margaret Sullavan. Teve o seu primeiro grande papel em 1937 no filme You Only Live Once de Fritz Lang. A sua carreia continuou a progredir nos anos seguintes, com presenças em filmes como Jezebel e Drums Along the Mohawk. Em 1939 é um inesquecivel Abraham Lincoln em Young Mr Lincoln. O filme marca o inicio da colaboração com John Ford que irá acabar abruptamente no set de Mister Roberts, em 1955, quando Ford soca Fonda após uma violenta discussão.
Em 1940 é Tom Joad na inesquecivel adaptação de The Grapes of Wrath de John Steinbeck. O filme foi altamente censurado à época o que impediu Fonda de vencer o seu primeiro óscar. Só voltará a ser nomeado quarenta e um anos depois.
Trabalha com Lang de novo em The Return of Frank James e com Wellman em The Box-Ow Incident. É perfeito no seu terceiro filme com Ford, My Darling Clementine, como Wyatt Earp e volta a trabalhar com o realizador em Forte Apache e Mister Roberts. Acabada a união com Ford, enveredra pelo drama em War and Peace, passa pelas mãos de Hitchock em The Wrong Man e produz e representa de forma sublime 12 Angry Men. A sua presença nos palcos é constante e apesar de regressos ao cinema em filmes como Warlock, The Longest Day ou How the West Was On será em 1968, como vilão em Once Upon a Time in the West que Fonda volta ao seu melhor. Por essa altura corta relações com a polémica filha, Jane Fonda, e começa a sentir-se doente. Passa os anos 70 na televisão e em 1980 recebe um óscar honorário. Em 1981 junta-se a Khatarine Hepburn e à filha Jane Fonda, com quem faz as pazes, em On a Golden Pond. O filme é um relativo sucesso e já ás portas da morte torna-se o mais velho vencedor de um óscar, com 75 anos. Não consegue receber o óscar em Hollywood porque já está acamado. Nunca mais se irá levantar, morrendo nesse ano para tristeza de muitos amantes de cinema.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Gary Oldman


É um dos actores mais versáteis da história do cinema. Encarna todo e qualquer tipo de papeis sempre com a mesma genialidade. Encarnou desde personagens históricas a homens excentricos, sempre convencendo tudo e todos do seu enorme talento. É provavelmente o actor mais sub-estimado da sua geração. Um pecado que ainda vai a tempo de ser remediado...

Gary Oldman traz em si toda a chama dos actores britânicos aliado a uma versatilidade tipicamente norte-americana. É o homem dos sete oficios. Já foi vilão, heroi, politico, compositor, musico e feiticeiro. Mas sempre com o mesmo toque de génio.

Nascido a 21 de Março de 1958 em Londres, Leonard Gay Oldman é o fiho tipico de Londres. Os pais eram gente humilde e Oldman só entrou mesmo numa fase avançada da sua aprendizagem como actor graças a uma bolsa de mérito. Foi então que no Rose Bruford Drama College começou a dar azo a todo o seu talento. Em 1979 recebeu um prémio de alto mérito pelos progressos desenvolvidos. Passou para o Greenwich Young People's Theatre onde começou a representar de forma continua. Daí até saltar para os teatros do East End foi um instante. Em 1985 venceu o Prémio Revelação e Prémio Melhor Actor do teatro londrino pela peça The Pope´s Wedding. Estava a hora de provar o seu valor no cinema.


E para primeiro papel nada como a mitica personagem da cena musical Sid Vicious no filme Sid and Nacy. Estavamos em 1986 e esta seria a primeira personagem histórica que iria encarnar de forma tão convincente que já não imaginamos a mesma personagem interpretada por outro actor.
Depois foi Joe Orton, o conturbado dramaturgo gay britânico em Pick Up Your Ears, ao lado de Alfred Molina, em 1987. Seguiram-se excelentes desempenhos em Track 29, Criminal Law, Chattachochee e Rosencratz and Guilderstern are Dead, filmes de 89 e 90. Era uma fase boa para Oldman que se começava a afirmar entre os demais. Antes de saltar para a fama como Lee Harvey Oswald, no mitico filme de Oliver Stone, esteve em estado de graça em State of Grace - notável performance ao lado de Sean Penn e Ed Harris - e ainda em Heading Home.
Mas foi de facto JFK que o catapultou para a fama. A viver o suposto assassino de presidente Kennedy, Oldman é uma das peças fortes do filme sem nunca ser demasiado extravagante. A sua omnipresença reforça ainda mais a sua poderosa interpretação. E a fama ali tão perto.


E depois de ser Oswald não há nada como viver Dráculo. Foi isso que Oldman pensou quando aceitou o convite de Francis Ford Copolla para ser a estrela do seu mais recente filme, The Bram Stoker´s Dracula. Um papel intenso, como habitual, e cheio de profundidade dramática, ou seja, tipico de um filho dos palcos.
Em 1993 Oldman fez apenas Romeo is Bleeding, filme sobre o sub-mundo da policia e as suas relaçoes com a mafia.
O ano seguinte provou no entanto ser o melhor da sua carreira.
Primeiro foi Stansfield, a nemesis de Jean Reno no sucesso de Luc Besson, The Professional. E nesse mesmo ano conseguiu o seu maior desempenho de sempre - e um dos mais portentosos da década - ao viver o compositor Ludwig von Beethoven no inesquecivel Imortal Beloved. Um desempenho marcante mas que acabou por passar ao lado dos grandes prémios. Por essa altura já se percebia que Oldman era, a par de Johnny Depp, o actor mais sub-valorizado da sua geração.


O ano seguinte seria marcado por dois filmes apenas, Murder in the First e The Scarlett Letter, onde contracenou com Demi Moore num drama de época, onde valores morais e um amor impossivel se cruzam de forma impiedosa.
Basquiat iria dar a Oldman mais uma hipótese de brilhar, desta vez como elemento secundário, enquanto que em 1997 seria um Oldman hilariante aquele que Luc Besson escalou para entrar no seu sucesso The Fith Element.
Por essa altura a faceta de vilão de Oldman estava em alta o que se confirmou no filme Air Force One, ainda de 1997, no tele-filme Jesus, onde foi Pilatos, e ainda no notável The Contender, filme que para muitos poderia ter sido o da coroação tão ansiada. O que obviamente não veio a acontecer.


Hannibal marcava a estreia de Oldman no novo século. Era já uma fase baixa da carreira do notável actor, sucessivamente desaproveitado pelos grandes estudios. E depois de dois anos de trabalhos pouco reconhecidos, chegou a hipótese de Oldman se estrear num grande blockbuster. Foi em Harry Potter and the Wizard of Azkaban. Oldman só surge em cena nos últimos vinte minutos mas a forma como o faz desiquilibra logo as contas a seu favor. E prova a todos que ainda está no seu melhor.
Para os próximos tempos espera-se o regresso ao seu papel de Sirius Black em Harry Potter and the Goblet of Fire e Harry Potter and the Order of Fenix e ainda a ansiada performance em Batman Begins, onde viverá um jovem tenente Gordon.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Bette Davis


Começou a representar numa era que fazia ainda a ponte das divas do mudo para as primeiras estrelas do sonoro. Não tinha a beleza e charme natural das grandes rivais da época, Garbo e Dietrich, e alimentou durante décadas uma rivalidade com Joan Crawford. 

No final de contas acabou por se perceber que Bette Davis é de facto um nome único na história de cinema, uma autêntica diva de Hollywood. Depois de pequenas participações em vários filmes do inicio dos anos 30, Bettie Davis faz-se notar pela primeira vez em Of Human Bondage, filme que lhe vale uma nomeação ao óscar em 1934. No ano seguinte sai vencedora da cerimónia graças ao monstruoso desempenho em Dangerous. Segue-se a parceira com Leslie Howard e Humphrey Bogart em Petrified Forrest e em 1938 o seu segundo óscar por Jezebel, onde interpreta uma jovem menina mimada do sul. 

Com a vitória Davis tornava-se a mais séria candidata a ser Scarlett O´Hara, mas para sua raiva o papel foge para Vivien Leigh. A sua carreira continua de vento em poupa nos anos seguintes com magnificos desempenhos em Dark Victory, The Private Life of Elizabeth and Essex, The Letter e Little Foxes. Em 1942 consegue a sua sétima nomeação em dez anos de carreira por Now Voyager. Em 1944 novo "papelão", desta feita em Mr. Skeffington. 

O papel da sua vida surge em 1950 no filme All About Eve. Um filme que poderia ter consagrado Davis como a primeira actriz a vencer três óscares, mas que acabou por se revelar um falhanço pessoal para Davis. Anos mais tarde a história ficcional tornar-se-á realidade em 1982 quando a actriz doente será substituida por Anne Baxter numa serie televisiva). 

A sua carreira estava afectada pelos problemas legais que mantinha com a Warner, de quem se queixava que não lhe davam os filmes que merecia, e os anos 50 serão uma catastrofe completa. Regressa em grande estilo em Whatever Happned to Baby Jane?, filme onde contracena com a rival de sempre, Joan Crawford, e que lhe vale a sua oitava nomeação ao óscar. 

Passa então para a televisão, chegando mesmo a ganhar um Emmy. Morre em 1989 após uma carreira com mais de uma centena de filmes e um leque de inesqueciveis performances.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Dustin Hoffman


São já quarenta anos de carreira ao mais alto nivel na Meca do Cinema. Depois de uma estreia que acabou por se tornar quase mitica até aos papeis mais leves dos dias de hoje, esta foi uma carreira marcada a letras de ouro com performances abençoadas pelos deuses. E é por isso que ele é hoje, sem duvida alguma, considerado um dos melhores actores de sempre... Quem tem a sorte de se estrear em Hollywood com um filme tão forte como The Graduate e ser a estrela de tantos outros sucessos durante mais de tritna anos, só pode ser abençoado. 

Pelos deuses mais pelo talento também. E talento é algo que não falta a este "monstro sagrado" que é Dustin Hoffman. Nasceu a 8 de Agosto de 1937 em plena Cidade dos Anjos - L.A - numa altura em que essa já era a capital mundial do cinema. Talvez por isso se perceba que, desde sempre, Hoffman esteve em casa. Depois de uma infancia marcada pela rebeldia dos californianos do pós-guerra, Hoffman mostrou não ter grande talento na escola. Até a um dia em que se inscreveu numa cadeira de representação porque um amigo lhe dinha tido que naquela disciplina ninguém reprovava. 

E Hoffman não só não reprovou como encontrou ali a rampa de lançamento para uma carreira notável. No final decidiu-se pela arte de representar apenas pelo motivo de que não queria ir trabalhar como todos os outros. E ele não era como todos os outros, de facto. Depois de anos a aprender numa escola de representação em Pasadena conheceu Gene Hackman. O actor que mais tarde viria a ser galardoado com dois óscares desistiu do curso e procurou a sorte em Nova Iorque. Meses depois Dustin Hoffman foi à sua procura e acabou por morar no chão da sua cozinha. 

Eventualmente ambos acabariam por conhecer um terceiro actor, Robert Duvall, com quem partilhariam algumas agruras. E assim estava formada a coluna vertebral da representação norte-americana da década de 70 (faltará apenas Al Pacino, Jack Nicholson e de Niro). Aos 29 anos conseguiu finalmente um papel diante das camaras. Foi numa produção televisiva, The Journey of the Fifth Horse. 

No ano seguinte surgiria a estreia no cinema. Mel Brooks, vizinho de Hoffman, tinha-lhe dado o papel de destaque na peça The Producers que iria estrear esse ano na Broadway. Só que Anne Bancroft, mulher de Brooks, sugeriu Hoffman para The Graduate, o seu próximo filme. Na altura de escolhar entre Hollywood e a Broadway, Dustin Hoffman não teve duvidas. O filme foi um sucesso e a sua estreia foi apelidade da masi entusiasmante de sempre. Eventualmente chegaria a sua primeira nomeação ao óscar, logo no primeiro filme. Dois anos depois mais um grande desempenho num filme de sucesso. 

Ao lado de Jon Voight, o jovem Dustin Hoffman encarnou um tuberculoso cowboy em Midnight Cowboy, filme que acabaria galardoado com vários óscares. As cenas finais do filme, com Hoffman a morrer lentamente, tornaram-se marcantes e marcaram de imediato a sua carreira. A partir desse momento ele deixava de ser uma jovem promessa. O filme dar-lhe-ia, lado a lado com o colega Voight, a nomeação ao óscar de Melhor Actor, a segunda em três anos, algo notável para quem tinha feito apenas cinco filmes. No entanto, e tirando Litle Big Men em que Hoffman vive Crazy Horse, o mitico indio, dos 17 aos 112 anos, foi preciso esperar mais quatro anos para ver o actor em grande forma. Em 1973 surgiu ao lado de Steve McQueen em Papillon. 

No entanto a sua performance devastadora como o comediante maldito Lenny Bruce chegou em 1974 e conquistou tudo e todos, menos o óscar para o qual foi nomeado pela terceira vez em Lenny. Entretanto já lhe tinham recusado o lugar de Michael Corleone na saga The Godfather e preparavam-se para lhe dizer que não no filme One Flew Over the Cuckoo´s Nest, que viria a consagrar Jack Nicholson. No entanto em 1976 deu-se o seu regresso em estilo em All the President´s Men onde viveu o jornalista Carl Bernstein, ao lado de Robert Redford no filme de Allan J. Pakula. Apesar das nomeações que o filme conseguiu, Hoffman falhou a sua quarta nomeação. 

Mas muitos já afirmavam que estava na hora do actor ser consagrado, naquele que era uma década espectacular para Hoffman. Em 10 anos tinha interpretado já inumeros miticos papeis e conquistado quase uma mão cheia de nomeações. Depois de Marathon Men, onde brilhou ao lado de Laurence Olivier, chegaria, três anos mais tarde, em 1979, o seu óscar. O filme, que venceria varias estatuetas, seria Kramer vs Kramer, e ao lado de Meryl Streep, que começava aqui uma carreira de glória, Hoffman esteve igual a si mesmo, ou seja genial. Na noite de glória, ele que tinha dito que não lhe interessavam os prémios depois de ter sido derrotado pela terceira vez em 1974, estava eufórico. A vitória era justa. 

 Os anos 80 por sua vez mostraram ser uma década atipica. Apesar dos seus dois melhores desempenhos de sempre terem aberto e fechado a década, a verdade é que Dustin Hoffman esteve afastado do cinema fazendo apenas cinco filmes em dez anos. O primeiro seria Tootsie, provavelmente uma das comedias mais hilariantes da história do cinema norte-americano. Hoffman foi ele e ela neste notável filme e voltou a ser nomeado ao óscar, pela sexta vez. Perdeu, injustamente, para Ben Kingsley mas mostrou que após três anos de inactividade, estava de volta em estilo. 

Só em 1988 é que Hoffman voltou ao seu melhor, depois de dois titulos menores a meio da década. Em Rain Man ele é absolutamente notável como o autista Charlie Babbit. A sua performance esmagadora valeu-lhe o seu segundo e último óscar de melhor actor. E para fechar os anos 80, Dick Tracy, filme onde mostrou o seu ar de vilão sedutor diante do charme de Warren Beatty. O inicio dos anos 90 mostrou um Hoffman activo e em papeis interessantes. Exceptuando a sua performance no desastro Hook, em 1991, foi refrescante vê-lo em Billy Bathgate e Hero, que provaram ser dois dos seus melhores papeis de sempre. 

Seguir-se-iam mais alguns anos de inactividade até 1997, altura em que, ao lado de Robert de Niro, viveu a personagem Stanley Motts no notável Wag the Dog. Contra todas as previsões, Hoffman conseguiu a sua sétima nomeação ao óscar de Melhor Actor, um feito notável. Apesar da derrota para o eterno rival Jack Nicholson (eles são, provavelmente, os dois melhores actores da geração de 69) esta foi a prova de que, aos sessenta anos, Hoffman ainda estava bem vivo. Desde aí para cá as suas personagens têm-se tornado cada vez mais leves. Se exceptuar-mos a sua notável aparição na Jean D´Arc de Luc Besson, o humor tem sido a nota dominante nos seus últimos anos de carreira. A prova está bem à vista este ano, tanto em I Hearth Huckbees como em Meet the Fockers. 

O seu desempenho em Finding Neverland já foi igualmente louvado havendo a clara hipótese de em 2004 Hoffman ter a sua primeira nomeação como melhor Actor Secundário. Dustin Hoffman é sem duvida um daqueles actores que, independentemente do filme em que entra, arrasta centenas de espectadores às salas de cinema. O seu estilo muito particular de encarar a camara dá-lhe uma força extra que poucos actores conseguem ter. E a sua diversidade de personagens que podem ir do moribundo Ratso Rizzo em Midnight Cowboy à hilariante Dorothy Michaels em Tootsie são a prova viva de que aqui mora uma das estrelas mais cintilantes da história do cinema.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Jack Lemmon


Provavelmente um dos maiores actores de comédia de sempre (apesar de não ser um cómico como o eram Chaplin, Keaton, Groucho, Lewis ou Sellers), mas também capaz de desempenhos dramáticos assombrosos, Jack Lemmon é um icone de uma forma de fazer cinema que já não existe. 

Sempre capaz de brincar com os seus próprios defeitos - um pouco desengonçado, picuinhas, sem grande sentido de humor, resmungão - fez com Billy Wilder e Walter Matthau uma das melhores triplas de todos os tempos. Começou a sua carreira em 1949 mas foi em 1955 no polémico Mr Roberts - o tal filme que acabou com a amizade de Ford e Fonda - que Jack Lemmon se destaca, vencendo de forma surpreendente um óscar. Era apenas o seu décimo filme. 

Durante quatro anos anda perdido em papeis com que não se identifica até que em 1959 conhece Billy Wilder. O realizador junta-o a Tony Curtis e Marilyn Monroe e juntos criam a maior comédia da história do cinema, o inesquecivel Some Like it Hot. O filme consagra Lemmon como um actor popular e bem recebido pelos criticos mas o "furacão" Ben-Hur rouba-lhe o segundo óscar. 

No ano seguinte a dupla Wilder-Lemmon volta a ser bem sucedida, com uma serie de óscares por The Apartment. Em 1962 Lemmon experiementa pela primeira vez com sucesso o registo dramático em Day of Wine and Roses, que lhe valem uma quarta nomeação e o aplauso da critica. Em 1963 mais um filme com Shirley MacLaine e Billy Wilder, o irresistivel Irma la Douce. Em 1965 a sua carreira sofre uma reviravolta. Conhece Walter Matthau e juntamente com ele criam uma das maiores duplas de sempre da história do cinema, com Billy Wilder por trás da camara. 

O primeiro filme em conjunto, The Fortune Cookie, dá o óscar a Mathau e cria uma empatia que nunca mais desaparecerá. The Odd Couple, baseado numa peça de Neil Simon consagra as personagens de Felix Unger e Oscar Madisson que irão recuperar por diversas vezes ao longo da carreira. Ainda com Matthau e Wilder faz The Front Page em 1974 e Buddy Buddy em 1981. Por essa altura Jack Lemmon já é um consagrado actor dramático. 

Conquistara o seu óscar como actor principal em 1973 no drama Save the Tiger, e voltaria a ser nomeado por três vezes por The China Syndrome, Tribute e Missing. Nos anos 90 volta aos filmes com Walter Matthau em Grumpy Old Men e Grumpier Old Men. Antes já tinha passado por JFK e Glengarry Glen Rose. Em 1998 faz o seu último filme com Walter Matthau, The Odd Couple II, recuperando as personagens que o tinham imortalizado. Dois anos depois morre Matthau deixando Lemmon destroçado. 

O seu cancro só lhe permitirá viver mais um ano. Com a sua morte, o mundo perdeu uma das pessoas que mais o fez rir durante meio século.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

António Banderas



Aprendeu com o mestre Almodovar a não ter medo de dar tudo por todo. Depois de um estágio longo ao serviço do carismático realizador espanhol decidiu experimentar o cinema na versão de Hollywood. E ninguém poderá dizer que não se saiu bem. Afinal ele éa inda, aos quarenta e quatro anos, a personificação perfeita do latin lover...

Nasceu em Malaga, no sul da vizinha Espanha, a 10 de Agosto de 1960 com o nome de José Antonio Domínguez Bandera. Os pais eram gente simples e o seu sonho era o de qualquer miudo espanhol: ser jogador de futebol. Só que aos 14 anos o pequeno Antonio partiu um pé e hipotecou uma carreira no mundo do desporto. Foi então que surgiu a representação. Depois de vários anos a trabalhar em peças escolares e pequenas companhias locais, aos vinte anos António rumou a Madrid onde entrou no mundo do teatro espanhol e, ao mesmo tempo, começou a surgir em series e novelas televisivas. Na Espanha do pós-franquismo o jovem Antonio começava a ganhar protagonismo. Depois conheceu Pedro Almodovar, um jovem realizador excêntrico que iria mudar o cinema espanhol, e nada foi o mesmo.


Laberinto de pasiones, de 1982, foi a sua estreia no cinema e logo pela mão daquele que se viria a revelar o maior realizador espanhol de todos os tempos. Banderas interpretava um gay que era ao mesmo tempo um terrorista islâmico. Era o primeiro de muitos papeis delirantes que o actor interpretava para Almodovar, que neste sua primeira fase era também o realizador mais barroco da Europa. Durante os dez anos seguintes Banderas trabalhou com Almodovar e com vários emergentes realizadores espanhois. Filmes como El Senõr Galiendez ou Caso Cerrado foram reforçando o seu papel no meio cinematográfico espanhol. Mas seriam os seus filmes almodovarianos - Matador, La Ley del Deseo, Mujeres al bordio de un ataque de nervios e Atame! - que o tornariam um icone do cinema espanhol dos anos 80.


Em 1992 o salto para Hollywood no filme Mambo Kings. Como continuaria a acontecer com regularidade, o seu forte sotaque andaluz levou a que os seus papeis tivessem sempre uma origem latina. Em Mambo Kings foi um dançarino cubano de grande talento. Já em The House of Spirits, filmado em Portugal, trabalhou ao lado de alguns dos grandes actores de Hollywood como Meryl Streep, Jeremy Irons e Glenn Close. No mesmo ano seria o amante de Tom Hanks em Philadelphia, filme pelo qual foi bastante aplaudido pela critica. A sua carreira nos Estados Unidos ia de vento em popa.
O seu papel principal chegaria com Of Love and Shadows, um melodrama de 1994 com Jennifer Connely que acabou por não ter grande aceitação por parte da critica. Nesse mesmo ano seria Armand, o lider dos vampiros parisienses em Interview With the Vampire, onde contracenou com Brad Pitt e Kirsten Dunst.


A sua estreia como actor principal lançaria-o para novos voos. E em 1995 foi a afirmação definitiva de António Banderas como a estrela latina de Hollywood.
Desperado seria o papel que o lançaria para a fama. Neste filme de Robert Rodriguez - continuação de El Mariachi - e com Salma Hayek e Joaquim de Almeida, Banderas é um tocador de viola que vive de outro grande talento: a arte de matar tudo o que se mexe. O filme tinha cenas de acção verdadeiramente espectaculares e um humor truculento que impressionou tudo e todos. Ainda nesse ano e ao lado de Juliane Moore e Silvester Stallone (num filme escrito pelos irmãos Wachowski, que mais tarde criariam The Matrix) Banderas surge em Assassins mantendo bem viva a chama de eximio atirador que ganhara no filme de Rodriguez. O ano acabaria com o thriller-erótico Never Talk To Strangers onde Banderas seduz Rebeca de Mornay.


No final de 1995 tinha estreado Two Much. O filme era uma comedia romantica sem grande argumento mas acabou por ser um filme marcante na carreira de Banderas. O actor conheceu Melanie Grifith, a filha de Tippi Hedren, e ambos apaixonaram-se de imediato. Um ano depois o casal dava o nó (Banderas já tinha estado casado entre 1987 e 1996 com uma actriz espanhola) e começava uma das mais famosas e duradouras relações de Hollywood.
E depois de um ano de extrema violência, eis que chegou o ano dos papeis dramáticos. Em 1996 o actor espanhol é o Che ao lado de Madonna no musical Evita. Banderas conseguiria por este filme uma nomeação ao Globo de Ouro de melhor actor (que perderia para Tom Cruise), a prova de que o seu trabalho estava mesmo a ser apreciado em Hollywood.


Em 1998 surgiu The Mask of Zorro. O filme foi um êxito tremendo e António Banderas voltou a mostrar porque era o perfeito sex-symbol latino nos Estados Unidos. Ao lado do veterano Anthony Hopkins e da estreante Chaterina Zeta-Jones, o espanhol é eloquente como o sucessor do mitico heroi californiano. E no ano seguinte mais um grande exito, desta vez em The 13th Warrior onde encarna um guerreiro árabe que tem de lutar ao lado de uma tribo viking contra um inimigo nunca visto. Um belissimo filme de acção e mais um desempenho a juntar ao livro de notas. Banderas estava em alta e nem o delirante The White Kid River abalou o seu protagonismo. Até porque Play it With the Bone, o filme onde partilhou o ring de box com Woody Harrelson foi um sucesso de box-office.
Nesse ano de 1999 Banderas estreava-se na realização. Crazy Alabama (que contava no elenco com toda a familia, desde a mulher até aos seus jovens enteados). Apesar de não ter sido dos melhores filmes do ano foi curiosa a forma descontraida com que o actor experimentou o outro lado da camara.


The Body, onde viveu um padre católico que vive na dúvida sobre se a morte de Cristo foi real ou não, e Spy Kids, onde trabalhou de novo com Robert Rodriguez, marcaram o seu regresso ao cinema depois de ano e meio de ausência. Banderas decidira experimentar o teatro norte-americano na Broadway e saiu-se tão bem como tinha sucedido na sua Espanha natal. O final desse ano ficaria marcado por Original Sin, o thriller erótico em que partilhou o ecrãn - e a cama - com a emergente Angelina Jolie.


Em 2002 regresso à saga Spy Kids, mas, mais do que isso, dois dos filmes mais aplaudidos do ano contaram com a sua presença.
Em Frida, Banderas volta a trabalhar com Salma Hayek (filme que lhe valeu a sua nomeação ao óscar) e em Femme Fatale, ao serviço de Brian de Palma, Antonio Banderas dá um desempenho extraordinário ao lado da bela Rebeca Romjin-Stamos. O ano não acabaria sem um pequeno flop, Balistic, que no entanto passaria despercebido. 
E em 2003, para além de completar a trilogia Spy Kids, num papel muito fora do normal na sua carreira, houve a oportunidade de viver a personagem Pancho Villa num telefilme de sucesso And Starring as Pancho Villa Himself. Mas o grande destaque do ano acabou por ser o seu regresso à personagem El Marachi em Once Upon a Time in Mexico. Mais uma vez um filme de acção cheio de garra por parte de Robert Rodriguez que recolocou Banderas no mapa das grandes personagens de acção. Ele que acabaria por ser revelar uma das maiores estrelas de um grande exito de 2004, Shrek 2. A sua personagem, o Gato das Botas, trouxe outra vida ao filme e a sua voz marcadamente latina conquistou os espectadores de todas as idades. 


Neste momento Banderas está a gravar o esperado The Legend of Zorro, a continuação do seu grande sucesso de 1998. Para além disso há sempre a Broadway, onde o actor gosta de actuar com regularidade, e a sua paixão pela realização. Banderas é hoje um actor extremamente popular e com grande talento. Aos 44 anos está no pique da sua forma e não nos admirariamos se nos próximos anos ele volte a dar um salto qualitativo imenso, fazendo desta uma biografia quase obsoleta.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Denzel Washington




Tornou-se o primeiro actor negro em quase quarenta anos a vencer um óscar de melhor actor. E é o único negro a ter dois óscares em casa. Uma carreira de grande sucesso para um actor de talento imenso. É um dos simbolos da geração de 85 e hoje é, sem margem para dúvidas, um dos três melhores actores do mundo. Ele é um exemplo a seguir para uma comunidade que continua a procurar o seu lugar no sol de Hollywood...


Como o próprio disse na "sua" noite, em Março de 2001, tinha vivido toda a vida atrás do fantasma de Sidney Poitier, o maior simbolo para a comunidade negra norte-americana. Mas hoje ninguém tem duvidas que é ele, Denzel Washington, vencedor de dois óscares (o primeiro por Glory e o segundo por Training Day), o porta-estandarte de toda uma raça.

Denzel nasceu a 28 de Dezembro de 1954 em Mont Vernon no estado de Nova Iorque. Era o filho do meio de uma familia de profundas crenças religiosas. A mãe era esteticista e o pai um pastor da Igreja de Pentecostes, o que influenciou muito a formação moral do jovem. Depois de ter completado o liceu, decidiu inscrever-se no curso de jornalismo na Fordham University. Só que foi aí que o "bichinho" da representação tomou conta dele. Partiu para a Califórnia e inscreveu-se no American Conservatory Theater onde só ficou um ano. Depois de ter tido as primeiras lições, achou que seria a experiencia do dia a dia que seria fundamental na sua aprendizagem. E foi então que começou a procurar trabalho como actor, tarefa nunca fácil para um jovem negro num país onde a igualdade entre as raças ainda está mais no papel do que na prática. Em 1977 conseguiu o seu primeiro papel na televisão. 


A primeira metade dos anos 80 foram passados na televisão. Em 1982 entrou na popular serie St. Elsewhere e só em 1987 conseguiria o seu primeiro papel de destaque no cinema. O filme era Cry Freedom, e ao viver o mitico Steve Biko, o jovem Denzel mostrou logo ter potencial para grandes voos. Algo que dois anos depois foi facilmente provado em Glory. Ao interpretar um rebelde soldado negro na dificil Guerra Civil norte-americana, Denzel dominou por completo o filme. Acabou galardoado com o óscar de melhor actor secundário. Era a primeira vez em 25 anos que um actor negro era premiado pela Academia e muitos viam nisso um sinal positivo para o futuro de Washington. Afinal ele era já um eleito.
No entanto o inicio dos anos 90 não se revelaram tão proliferos como se esperava. Denzel participou em produções menores e só em 1992 voltou a dar o verdadeiro ar da sua graça no filme de Spike Lee, Malcom X. Mais uma vez Denzel Washington foi fantástico a viver o revolucionário muçulmano dos anos 60 e não surpeendeu ninguem que colecionasse, aos 39 anos, a sua segunda nomeação ao óscar.


1993 acabaria por se revelar um excelente ano para o actor. Entrou na adaptação de Kenneth Branagh da obra de William Shakespeare, Much Ado About Nothing, e ao lado de Julia Roberts brilhou em The Pelican Brief. No entanto a sua melhor performance foi no sucesso do ano Philadelphia, onde actuou com grande frieza como advogado de Tom Hanks. Hanks, que ganharia o primeiro óscar neste filme, diria mais tarde que nas rodagens de Philadelphia tinha aprendido mais cinema do que nos anos que tinha de carreira, isto a ver Denzel representar.
No entanto até 1996, ano de Courage under Fire, custou a Denzel voltar aos seus grandes momentos. Mesmo tendo entrado em Crimson Tide, filme de Tony Scott onde contracenava com Gene Hackman.
De facto os anos 90 acabaram por ser de sensações mistas para o actor. A sucessos como Philadelphia e Malcom X contrapunham-se falhanços em toda a linha. E seria assim até ao final dos anos 90, altura em que o actor voltou aos papeis de qualidade. Em 1999, o filme Bone Colector abria as portas para um periodo verdadeiramente dourado na sua carreira.


Nesse mesmo ano, e depois do sucesso de The Bone Colector, chegou a sua terceira nomeação ao óscar por The Hurricane. O filme onde Washington encarnava a personagem veridica de Rubin Carter viveu das explosões de garra de Denzel que acabaria por perder o óscar para Kevin Spacey, quando muitos pensavam que seria o ano da sua consagração. Não foi mas revelou-se uma importante data para o actor marcar o seu regresso. Em 2000 mais um grande desempenho em Remember the Titans, um dos filmes mais interessantes do ano. Mas a glória chegava em 2000 no mitico Training Day. Muitos pensavam que Russel Crowe iria repetir o triunfo do ano transacto mas ninguém conseguiu resistir à notável performance como capitão Alonzo Harris no filme de Antoine Fuqua. Provavelmente uma das melhores representações de sempre de um actor, a vitória na cerimónia da Academia não surpreendeu ninguem. E Denzel tornava-se no primeiro actor negro a vencer dois óscares, numa noite onde, curiosamente, Sidney Poitier também era homenageado.


A partir desta data memorável a carreira de Denzel Washington arrancou para a consagração total. John Q e Antwone Fisher - este realizado por si - foram dois sucessos de bilheteira e reforçaram ainda a imagem de sucesso que o actor transparecia. Já este ano, Denzel Washington brilhou em tres filmes distintos. Primeiro no filme extremamente "cool" que foi Out of Time. Mais tarde seria um carrasco implacável em Man on Fire e por fim revivaria o papel original de Frank Sinatra em The Manchurian Candidate, mas com muito mais intensidade dramática note-se.


Denzel Washington é, a par de Tom Hanks e Sean Penn um dos três melhores actores do momento. A sua garra, as suas explosões num overacting soberbo e a sua imensa sensualidade marcam todas as suas performances. É o "pai" de toda uma nova geração de talentosos actores negros como Will Smith e Jamie Foxx e poucos acreditam que não volte a ser premiado. É que, como a sua carreira vai, é um sentimento geral de que o melhor de Denzel Washington poderá estar para vir. Não que existam Training Day´s todos os anos, mas porque ele é de facto uma força da natureza.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Charles Chaplin


A maior estrela do cinema mudo sem qualquer discussão. Chaplin foi um visionário. Soube aprender os truques do oficio com a estrela Max Linder mas utilizou-os de forma a atingir todos os públicos. A sua mais famosa criação, Charlot, ainda hoje é um icone inesquecivel. 

O orfão britânico chegou a Hollywood em 1914. Meia dúzia de anos depois já era uma estrela. Ajuda a fundar o estúdio United Artits e populariza a comédia em Hollywood, tendo como rival directo o popular Buster Keaton. A sua vida intima torna-o num dos maiores colunáveis da época. Casa-se várias vezes, uma das quais com uma menor com 14 anos o que provoca imensa polémica. 

A sua passagem para detrás das camaras não tem o sucesso previsto e apesar da popularidade de Charlot, a verdade é que Chaplin se torna persona non grata em Hollywood. Com a chegada do sonoro não abandona a mudez da sua personagem e retira-se de Hollywood. Parte para a Europa depois de fazer de rajada quatro obras-primas. The Gold Rush, The Circus, City Lights e Modern Times. É em 1940 que se ouve pela primeira vez Chaplin em The Great Dictator. 

O filme é nomeado para os óscares mas há muito que o actor está em ruptura com a Academia depois desta lhe ter entregue um óscar honorário após retirar de competição as suas múltiplas nomeações por The Circus, que era o mais forte candidato a vencer a primeira edição dos óscares. Em 1847 volta a ser nomeado como argumentista por Monsieur Verdoux, aquele que é talvez o seu mais espantoso desempenho e é em 1952 que no filme Limelight Chaplin atinge a sua total maturidade como artista. 

O filme é espantoso, como seriam os dois últimos, A King in New York e The Contess of Hong Kong, ambos dirigidos por ele. Em 1971 Chaplin suspense o seu exilio voluntário na Suiça para receber um óscar honorário. No ano seguinte vence um óscar pela melhor banda sonora de...Limelight, um filme com vinte anos. A morte encontra-o em 1977, levando assim um dos maiores mitos da história da 7º Arte.